Em 2008, tornou-se mundialmente famoso o caso dos irmãos gêmeos Tyler e Cameron Winklevoss, que ganharam pelo menos US$ 65 milhões após uma batalha judicial com o CEO do Facebook Mark Zuckerberg.

Os gêmeos, então alunos de Harvard, pediram a Zuckerberg para que este escrevesse o código para um site que ambos estavam criando, o Harvard Connection, que no final acabou se transformando no ConnectU.  Zuckerberg, porém, tinha outras e mais elaboradas ideias fervilhando em sua mente. E ali surgiu o Facebook.

Assim que o Facebook decolou, os irmãos Winklevoss começaram a reclamar e, após tentarem de todas as formas possíveis destruir o Facebook, sem lograr êxito, os gêmeos resolvem processar Zuckerberg por violação de sua propriedade intelectual, ainda que os códigos de ambos os projetos não tivessem absolutamente nada em comum.

Os gêmeos simplesmente alegaram ser os donos da ideia original do Facebook, dizendo que Zuckerberg havia se apropriado dela e ficado com a fama e com o dinheiro.

Se é verdade que Zuckerberg se apossou da ideia dos gêmeos, então eles foram muito sortudos de o terem conhecido. Por mais empreendedores que tenham sido os irmãos Winklevoss, a verdade é que são pouquíssimas as pessoas neste mundo que poderiam ter alcançado o que Zuckerberg alcançou. Raro é o visionário CEO que consegue transformar uma simples e humilde startup em uma colossal empresa global avaliada em US$ 430 bilhões.

Sem esta suposta expropriação de idéia feita por Zuckerberg, o mundo provavelmente jamais teria conhecido o Facebook. Talentos visionários com os de Zuckerberg são extremamente raros, assim como são raros os esportistas que realmente alcançam façanhas.

Travis Kalanick, ascensão e queda

O que nos traz a Travis Kalanick, co-fundador da Uber.

Kalanick nasceu em 1976, em Los Angeles, onde cresceu e cursou a UCLA. Mas não completou o curso. Começou a trabalhar e se dedicou à programação informática desde o início de sua carreira, abandonando seus estudos depois de ter criado uma startup.

Sua primeira empresa, a Scour, foi a precursora da Napster, permitindo a busca e o compartilhamento de música e vídeos on-line. Fundada em 1997, a empresa só sobreviveu três anos: a indústria americana do cinema e da música a levaram à falência, depois de exigir um pagamento de US$ 250 bilhões (uma quantia obviamente impagável, e imposta com o único intuito de quebrar a empresa).

Em 2001, Kalanick foi o co-fundador da Red Swoosh, também voltada para o compartilhamento de arquivos on-line. Viveu três anos sem salários (tendo de voltar a morar com os pais) e enfrenta dificuldades financeiras. No entanto, a empresa prospera e se torna um sucesso. Em 2007, ele consegue vendê-la e vira milionário aos 30 anos.

A ideia de criar a Uber veio em uma noite de inverno de 2008, em Paris. Kalanick e Garett Camp (que viria a ser o co-fundador da Uber) não encontravam táxi. Tiveram então de gastar US$ 800 contratando os serviços de um motorista particular. Desde então, ambos se propuseram ao desafio de encontrar maneiras de reduzir drasticamente o custo dos serviços de transporte particular.

Mais especificamente, ambos passaram a estudar maneiras de criar um serviço em que um carro com motorista particular poderia ser acionado pelo celular, e a custos populares.

O UberCab surgiu no ano seguinte, ma cidade de São Francisco, tornando-se um serviço corriqueiro já em 2010.

Sete anos mais tarde, a empresa encurtou seu nome para simplesmente Uber. E o resto é história. Presente em mais de 500 cidades ao redor do mundo, a Uber revolucionou a ideia de transporte particular, levando-o até as massas. Há apenas alguns anos, ter um motorista particular à sua disposição, o qual chega apenas alguns minutos após você clicar em um aplicativo no seu celular e que leva você para onde quiser, era um serviço disponível apenas para os milionários. Hoje, graças ao empreendedorismo de Kalanick, usufruir um serviço de motorista particular já se tornou uma alternativa barata para pessoas de todas as classes sociais ao redor do mundo.

A Uber possibilitou que até mesmo os mais pobres tivessem o luxo de um motorista particular (e barato) disponível a apenas um clique de celular. Aquele serviço que, há apenas alguns anos, era disponível apenas para o 1% mais rico da população, hoje, graças às qualidades visionárias de Kalanick, já se tornou uma alternativa acessível para os 99%.

Porém, desde o dia 22 de junho, Kalanick não é mais o CEO da Uber. Embora houvesse dito que iria se afastar apenas temporariamente do cargo, em luto pela trágica morte de sua mãe, a saída se tornou definitiva. Por pressão de investidores, Kalanick anunciou que não mais estaria ligado à Uber. Motivo: a exuberante e bastante desregrada cultura que imperava dentro da Uber estaria ficando fora de controle, segundo membros do conselho administrativo. Alegações de assédio sexual e discriminação no trabalho se avolumavam contra Kalanick.

A cultura de uma empresa começa no alto escalão. Sendo assim, a saída de Kalanick, mesmo que apenas temporária, foi vista como uma maneira de corrigir os rumos culturais da Uber.

A princípio, isso soa belo. Mas, obviamente, a deposição de Kalanick foi apenas uma tentativa de apaziguar os críticos ofendidos por seu estilo áspero e jogar um buquê de flores para a polícia do politicamente correto.

O que é realmente ignorado por aqueles desgostosos com a “cultura bad boy” da Uber é o fato de que apenas um bad boy como Kalanick poderia fazer o que foi feito, transformando um mero conceito em uma marca global que corajosamente desafia monopólios protegidos pelo estado, como o cartel dos taxis.

Não, a Uber não foi o primeiro serviço de compartilhamento de caronas. Mas a Uber foi o primeiro serviço de compartilhamento de caronas a alcançar uma escala global, e tudo graças à coragem e à disposição de Kalanick em bater de frente com o cartel dos taxis ao redor do mundo, quebrando seu monopólio e acabando com sua reserva de mercado.

Não apenas Kalanick corajosamente forçou a entrada da Uber em vários mercados fechados e protegidos pelo estado — utilizando métodos que alguns consideram “ilegais”, como o simples fato de operar mesmo tendo sido proibido pelo estado —, como ele também teve a coragem (e o sangue-frio) de gastar milhões de dólares com os trâmites judiciais necessários para legalizar a Uber em vários outros países.

E foi exatamente esta coragem de Kalanick que abriu as portas para seus próprios concorrentes, como Lyft e Cabify. Pode-se também creditar a Kalanick a melhoria observada nos próprios serviços de taxi ao redor do mundo, os quais, temerosos da concorrência, também criaram seus próprios aplicativos, passaram a conceder grandes descontos e melhoraram bastante o trato dispensado ao passageiro.

Não fosse a inabalável crença de Kalanick de que a Uber atenderia a uma demanda do consumidor, provavelmente não haveria nem Lyft, nem Cabify e nem muito menos uma melhora nos serviços de taxi. Ao expandir sua batalha local para um nível global, Kalanick satisfez uma demanda que vários consumidores ao redor do mundo nem sabiam ter — e nem muito menos sabiam que ela poderia ser atendida.

Para dizer o que já deveria ser óbvio, a Uber não é Uber sem Kalanick. Pessoas como Kalanick e Zuckerberg não crescem em árvores. Eles dão um novo significado à expressão sui generis. Embora seja possível que a Uber venha a se beneficiar com a chegada de Eric Schmidt (ex-CEO da Google), o fato é que seu atual valor de mercado — de US$ 70 bilhões — reflete muito mais uma cultura “bad boy” capaz de superar barreiras à inovação incrivelmente altas (erigidas pelo estado) do que a suposta chegada de um executivo bem mais velho, trazido para moderar exatamente aquilo que fez a empresa crescer.

Conclusão

Assim como o Facebook não seria o Facebook caso os irmãos Winklevoss houvessem conseguido tomar o controle de Zuckerberg, tampouco a Uber irá se tornar tudo aquilo que seus investidores esperam que a empresa seja caso o visionário que a tornou incrível seja deposto.

Kalanick construiu um empreendimento que vale hoje US$ 70 bilhões. É até possível que o substituto de Kalanick tenha a visão, a capacidade, a habilidade e a energia para superar o co-fundador da Uber, mas as chances são baixas.

O comércio e o bem-estar dos indivíduos são — sempre e em todo lugar — melhorados e aprimorados por aqueles que o economista Reuven Brenner rotulou de “os poucos essenciais”. Kalanick é essencial de uma forma que apenas uma fatia microscópica da população mundial também o é. Em vez de afastá-lo para apaziguar os ultra-sensíveis entre nós, é hora de nos tornarmos adultos e reconhecermos que, para alcançar o progresso humano, algumas vezes necessitamos de “bad boys” dispostos a romper barreiras fortificadas e protegidas por políticos.

VIAMises.org
FONTEJohn Tamny
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