Emmanuel Macron continua firme no topo das sondagens nas presidenciais francesas, mas a máquina de Marine Le Pen e da sua Frente Nacional está a ocupar cada vez mais espaço na campanha para a segunda e decisiva volta, ao mesmo tempo que tenta piscar o olho a uma parte da direita conservadora do derrotado François Fillon.

Foram dois dias seguidos com notícias sobre a Frente Nacional a marcar a agenda – na sexta-feira, uma sondagem do instituto Odoxa deu 41% a Marine Le Pen nas intenções de voto, 18 pontos abaixo de Macron, mas quatro acima do que tinha apenas dois dias antes; no sábado, a candidata da extrema-direita viu o seu partido furar a barreira psicológica da falta de apelos ao voto entre os candidatos derrotados no primeiro turno, recebendo o apoio de Nicolas Dupont-Aignan, líder do partido gaulista Debout La France; e logo a seguir Marine Le Pen devolveu a gentileza, anunciando que se vencer as presidenciais irá nomear Dupont-Aignan para o cargo de primeiro-ministro.

Com este apoio, Marine Le Pen espera juntar os quase dois milhões de votos que Dupont-Aignan teve no primeiro turno das eleições presidenciais, no dia 23 de Abril. Mas não é certo que os apoiantes do candidato que reclama ser o único e verdadeiro herdeiro de Charles de Gaulle adiram sem resistência ao extremismo da Frente Nacional – os problemas já começaram no interior do Debout La France, com as demissões do vice-presidente, Dominique Jamet, e do autor do programa do partido, Eric Anseau, ambos críticos da aproximação a Le Pen.

De acordo com as sondagens mais recentes, 33% dos que votaram em François Fillon no primeiro turno admitem votar em Marine Le Pen no segundo turno. Entre este eleitorado da direita coabitam facções com várias sensibilidades, apesar dos apelos dos principais líderes, como Nicolas Sarkozy, Alain Juppé e o próprio Fillon, ao voto em Emmanuel Macron.

O antigo ministro do Presidente François Hollande continua a ser o grande favorito, mas há uma fatia do eleitorado de ambos os extremos da política francesa que o despreza – à esquerda Macron é visto como um abutre enviado pelo sistema financeiro para destruir a França, à direita olham para ele como o herdeiro do ainda Presidente francês, tendo conquistado a alcunha de “Emmanuel Hollande”.

Apesar de estarem muito próximos em alguns temas – ambos são “soberanistas” e eurocépticos e defendem o reforço do policiamento, por exemplo –, até agora o partido de Dupont-Aignan tinha-se apresentado como uma alternativa nacionalista à extrema-direita, com as mesmas preocupações mas sem a carga xenófoba e racista da Frente Nacional.

O próprio Nicolas Dupont-Aignan criticou duramente a Frente Nacional e Marine Le Pen em várias ocasiões até há pouco mais de um mês. A 9 de Março, em entrevista à estação France Inter, afirmou que os eleitores não tinham de ficar reféns de uma escolha entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen: “No Debout La France não temos uma gaveta de extrema-direita, ao contrário da Frente Nacional.”

Mas as críticas à Frente Nacional deste político de 56 anos que gosta de se apresentar como um “gaulista humanista” são antigas, e foram muito fortes quando a sombra de Jean-Marie Le Pen engolia a figura da filha, Marine Le Pen. Continuaram pelo menos até 2013, quando quis deixar claro o que o separava da extrema-direita dos Le Pen: “A minha linha é muito simples: sou patriota e gaulista. E os gaulistas não podem aliar-se a um partido de que Jean-Marie Le Pen é presidente honorário. Não é possível.”

Marine Le Pen tentou dar uma imagem de maior moderação ao expulsar o pai do partido, no ano passado, depois de Jean-Marie Le Pen ter dito que as câmaras de gás dos nazis foram “um detalhe” da História, mas um tribunal travou essa decisão – legalmente Jean-Marie Le Pen continua a ser presidente honorário do partido e pode participar em todas as reuniões.

No mesmo ano, em 2013, o homem que agora poderá ser primeiro-ministro de França se Marine Le Pen vencer as eleições presidenciais estava convicto de que não era possível confiar no fundador e na líder da Frente Nacional: “Vocês querem confiar a França à família Le Pen? Não.”

Na conferência de imprensa deste sábado, Nicolas Dupont-Aignan surgiu ao lado de Marine Le Pen e disse que falou várias vezes com a representante da extrema-direita na última semana. No final dessas conversas, Dupont-Aignan decidiu que o melhor para a França é um acordo entre o seu partido e a Frente Nacional para as presidenciais, ainda que tenha salientado que o Debout La France vai sozinho às legislativas, marcadas para Junho.

Apesar de não ser obrigatório, a tradição francesa dita que o primeiro-ministro em exercício apresente a sua demissão ao novo Presidente logo após o segundo turno das eleições.

FONTEPublico News
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